Muito além do PSA: o risco de simplificar um debate que exige precisão, equidade e ciência atualizada
*André Sasse
No fim deste Novembro Azul, quando reforçamos a importância do diagnóstico precoce e do cuidado integral no câncer de próstata, uma decisão preliminar tomada no Reino Unido trouxe um novo elemento ao debate internacional. O comitê nacional de rastreamento daquele país recomendou que o PSA não seja usado em um programa populacional de rastreio e que a oferta de exames regulares seja concentrada apenas em homens que carregam variantes genéticas BRCA1 ou BRCA2, entre 45 e 61 anos.
A pergunta que surge é direta: por que restringir um exame que, em muitos casos, permite identificar tumores ainda em fase inicial?
A justificativa apresentada pelo painel britânico envolve a preocupação com o diagnóstico de tumores indolentes, que não colocariam a vida do paciente em risco, e com o potencial de tratamentos desnecessários. Essa discussão não é nova. Desde os primeiros estudos sobre rastreamento em próstata, ficou claro que o PSA, isolado, identifica tanto tumores agressivos quanto tumores de baixo risco. O desafio sempre foi separar esses grupos para evitar intervenções desnecessárias e, ao mesmo tempo, não perder a oportunidade de tratar quem realmente precisa.
A prática moderna, porém, evoluiu. Hoje contamos com ferramentas que não existiam quando os grandes estudos de rastreamento foram conduzidos. A ressonância multiparamétrica, a análise detalhada do escore de Gleason e a vigilância ativa estruturada permitem uma estratificação precisa do risco. É possível identificar com maior segurança quais tumores precisam ser tratados e quais podem ser acompanhados ao longo do tempo.
Isso significa que o diagnóstico precoce não deveria ser confundido com tratamento precoce. São etapas distintas. A decisão terapêutica deve ser tomada com base no conjunto de informações clínicas, de imagem e patológicas, e não apenas no resultado de um exame inicial. O excesso de intervenções observado no passado não se deve ao PSA como ferramenta, mas a uma interpretação menos refinada do risco.
Ao discutir políticas públicas de rastreamento, é importante considerar fatores como acesso, equidade e impacto real na mortalidade. Também é essencial ouvir as preocupações de grupos vulneráveis, como homens negros e homens com histórico familiar, que têm risco maior de doença mais agressiva. A falta de dados robustos nesses grupos não significa falta de risco, e sim a necessidade de investir em pesquisas que os incluam de maneira adequada.
Minha visão é que a discussão não deve ser reduzida a rastrear ou não rastrear. O caminho mais consistente é qualificar o processo. Isso envolve investigar melhor, interpretar com mais precisão e atuar de forma proporcional ao risco. A combinação entre PSA, ressonância e critérios objetivos de vigilância ativa tem potencial para reduzir danos e ampliar benefícios sem perder a oportunidade de diagnosticar tumores que realmente ameaçam a vida.
A controvérsia no Reino Unido é um convite para aperfeiçoar o debate, não para encerrá-lo. O futuro do cuidado em câncer de próstata depende menos da proibição ou da liberação irrestrita do rastreamento e mais da nossa capacidade de usar as ferramentas disponíveis de forma responsável, atualizada e centrada no paciente. É esse equilíbrio que deve guiar tanto as decisões clínicas quanto as políticas públicas.

*Dr. André Deeke Sasse é oncologista clínico e diretor da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), responsável pelo desenvolvimento do Índice de Priorização para incorporação de tecnologias em oncologia. É fundador e CEO do Grupo SOnHe, coordenador da Oncologia do Hospital Vera Cruz e diretor-presidente da Fundação Roberto Rocha Brito. Atua como preceptor da residência de oncologia clínica da PUC-Campinas e professor do programa de pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP. Sua experiência inclui pesquisa clínica, avaliação de tecnologias em saúde, economia da saúde e políticas de acesso oncológico.
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